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| http://www.jb.com.br/pais/noticias/2011/04/13/um-seculo-depois-de-morrer-prostitutas-polonesas-fazem-valer-seus-direitos/ |
– O que a Federação Israelita queria, a princípio, era colocar uma cerca-viva para isolar as prostitutas e enterrar seus mortos ali – conta Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral do Rio de Janeiro. – Com o tombamento do cemitério, no ano passado, conseguimos impedir que eles destinassem aquelas mulheres ao esquecimento. Finalmente reconheceram este cemitério e estão reformado o lugar, mas bem na surdina.
– É verdade que consideramos a possibilidade de fazer novas sepulturas em Inhaúma. Há muito espaço vazio lá – admite o Presidente do Cemitério Comunal Israelita do Caju, Jayme Salim Salomão. – Mas nós nunca pensamos em fazer uma cerca para separar as prostitutas, como diz a Beatriz Kushnir. O que desejávamos, era separar uma parte do cemitério para criar um museu vivo.
Administrado pela Federação Israelita, o Cemitério de Inhaúma foi tombado logo que a comunidade judaica começou a considerar a possibilidade de enterrar seus mortos ali.
– Não acho que seria justo com a memória das prostitutas polonesas permitir que outras pessoas sejam enterradas aqui – alega Beatriz Kushnir. Autora do livro “Baile de Máscaras”, que conta a história das meretrizes judias.
– Elas adquiriram aquele terreno por conta própria, após serem completamente abandonadas.
Apesar da suposta conquista, Jayme Salim Salomão acredita que o tombamento prejudica as próprias prostitutas.
– Tomamos a iniciativa de pintar as sepulturas e colocar nomes dos túmulos apagados, mas não podemos ir além – lamenta.
– Como o local está tombado, não podemos fazer grandes reformas. Quem perde é o cemitério. Antes, aquele lugar estava destruído. Como fica bem ao lado da Favela do Alemão, as pessoas pulavam o muro para roubar ornamentos dos túmulos.
Segregadas quando chegaram ao Brasil, no final do século XIX, tanto por serem judias quanto por serem prostitutas, as polacas tiveram forte impacto sobre a cultura carioca. A famosa Vila Mimosa, área tradicional de meretrício da cidade, foi fundada por elas.
A história, no entanto, não é exclusividade do Rio de Janeiro. Casos semelhantes de prostitutas judias que se uniram para conseguir um enterro digno se repetem no mundo inteiro. A diferença, explica Beatriz Kushnir, é que as demais comunidades judaicas abraçaram a causa das prostitutas.
– A Federação Israelita do Rio de Janeiro é retrógrada e autoritária. Eles estão fazendo a restauração sem alarde justamente porque não aceitam as prostitutas como parte da comunidade – garante a historiadora.
– Em São Paulo, por exemplo, a federação israelita fez comemorações quando incorporou o cemitério das prostitutas de lá. A comunidade judaica realmente compareceu à comemoração, visitou os túmulos. Tudo muito bonito. Aqui, tudo é feito às escuras. O Rio não abraçou a causa das polacas.
Para Beatriz, o tombamento não aconteceu apenas para impedir que outras pessoas fossem sepultadas no local, cujo último enterro foi no começo da década de 70.
Fazem parte do
807 Cemitério de
sepulturas Inhaúma,
pivô da
polêmica
– Aquele lugar representa a luta de mulheres que se uniram contra a opressão no começo do século passado, bem antes das primeiras manifestações feministas – ressalta a historiadora.
– É uma história que não pode ser esquecida pela cidade.
– Estamos arrumando os úlimos detalhes para comprar este novo terreno, que deve resolver o problema da falta de espaço por algum tempo.
Entusiasta da reforma em Inhaúma, o dirigente da Fierj não crê que a comunidade judaica tenha alguma dívida com as polacas e não vê verdade nas acusações de Beatriz.
– Acho que não existe dívida com elas, como dizem. Será que não deveria ser o inverso, já que agora estamos ajudando-as?














