sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A prostituição ontem e hoje, no Prosa desta semana (28.11.2009)

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/11/27/a-prostituicao-ontem-hoje-no-prosa-desta-semana-245157.asp


Numa série de artigos publicados no jornal "O Paiz" no fim do século XIX, o jornalista Francisco Ferreira da Rosa investigou o universo da baixa prostituição no Centro do Rio, dedicando-se especialmente às imigrantes de origem judaica vindas da Europa Oriental, chamadas na época de "polacas", termo que ficou registrado nos dicionários como sinônimo de meretriz. Elas (e a comunidade que se formou em torno delas, com cafetões, clientes, policiais, médicos) eram vistas com um misto de curiosidade, preconceito e espanto pela sociedade carioca, num momento em que a cidade se expandia rapidamente e aprendia a lidar com a nova condição de metrópole.

Os artigos de Ferreira da Rosa foram reunidos no livro "O Lupanar", publicado em 1896 e há décadas fora de catálogo. Este ano, o neto do autor, Carlos Ferreira da Rosa, organizou uma reedição da obra, com tiragem caseira de 100 exemplares, doada a bibliotecas e centros de referência. No Prosa desta semana, o repórter Guilherme Freitas conversa com historiadoras e pesquisadoras sobre a importância da obra de Ferreira da Rosa como documento histórico e sobre a forma como o autor reflete a visão da época a respeito da prostituição.

A reportagem discute também o delicado debate dentro da comunidade judaica do Rio sobre como lidar com esse passado hoje, examinando a discussão sobre o futuro do Cemitério Israelita de Inhaúma, onde estão enterradas 797 pessoas ligadas à associação de ajuda mútua fundada pelas prostitutas. Tombado pela prefeitura, mas depredado e desfigurado, ele tem uma área ociosa que pode vir a ser usada para novos enterros, de acordo com um projeto dos administradores do espaço. A historiadora Beatriz Kushnir, especializada na história das "polacas", denuncia o projeto como uma tentativa de expurgo da memória das mulheres.

Paulo Thiago de Mello resenha o livro "Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca" (EdUFF, no prelo), resultado da pesquisa de mestrado da antropóloga Soraya Silveira Simões. No livro, Soraya descreve o complexo cenário, propício ao jogo de sedução, criado pelas prostitutas nos mais de 70 bordéis que ocupam hoje a Rua Sotero dos Reis, na Praça da Bandeira. O trabalho de campo da autora também registra a tensa relação entre as mulheres e os donos de casas de prostituição, os conflitos de interesse na disputa pelos clientes, o processo de sedução e de procura no espaço da Vila, entre outros aspectos do dia a dia da zona.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Pois do pó viestes, e ao pó retornarás" (Bereshit 3:19)

Haverá sempre temas que fazem nossos sentimentos transbordarem de emoção. O meu é a questão da memória das polacas, narrativa que está na minha vida desde sempre, literalmente. Hoje, numa pequena nota de canto na coluna “Gente Boa”, de O Globo, o meu fôlego desapareceu por segundos e o sangue correu quente. Nela se lê:

Dignidade polaca
O cemitério judaico de Inhaúma vai restaurar as lápides com os nomes das prostitutas polacas que foram enterradas ali. A área é tombada pelo patrimônio municipal. Em troca, será dada autorização para que novos espaços de sepultamento sejam usados. O cemitério judaico do Caju está com sua capacidade esgotada.

Venho tentando inutilmente, sensibilizar a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) e a entidade Cemitério Comunal Israelita a recolocarem os nomes e as datas nas lápides daquele cemitério. Ao ser alertada da intenção de se murar as lápides de Inhaúma (com árvores, segundo eles) e assim “purificar” ortodoxamente o território, permitindo novos enterramentos e definitivamente condenando as polacas a párias, consegui junto à Prefeitura do Rio o tombamento do cemitério, em 2007. Cansada da soberba destes representantes comunitários que talvez se esqueçam de que o fim de todos é o mesmo, lancei uma campanha entre os meus amigos, na semana passada. Pedia-lhes que escrevessem às duas entidades citadas e solicitassem a recolocação das identidades nos túmulos. Talvez seja esta a explicação para a nota acima.

Curioso é que para nós, judeus, a mitzvá – o ato de bondade –, como enterrar o corpo de um desconhecido, por exemplo, é um dos preceitos dos mais estimulados. Ao que parece, infelizmente, para a FIERJ e para o Cemitério Comunal Israelita, há um preço para as mitzvot. Estamos ensinando aos nossos descendentes que, diferente das polacas enterradas em Inhaúma, cujo lema era “As Irmãs do Chesed shell emes” – da Caridade de Verdade, aquela que não busca a recompensa –, não se ajudará ao próximo sem levar uma vantagem nisso.

Ou seja, ou aproveitam o terreno vago, cercando as lápides existentes com “cercas-vivas” (que são muros), “purificando” o espaço e só assim, para não chocar os futuros visitantes, recolocam as identidades nos túmulos. Não recebendo qualquer lucro, não se fará essa mitzvá. Portanto, para a FIERJ e para o Cemitério Comunal Israelita, as pessoas que ali estão não são dignas de importância, preocupação e dignidade. Podem continuar, como muitas, sem matzeivá – sem uma pedra tumular –, no cimento, apenas marcadas com colorjet preto o seu primeiro nome (sem sobrenomes, é claro!).

O mais irônico de tudo isso é que o Cemitério Israelita de Inhaúma não precisa da bondade com preço, da FIERJ e do Cemitério Comunal Israelita. A última "Irmã Superiora" da Associação das polacas cariocas, Dona Rebecca, está enterrada em área nobre do lotado e concorrido Cemitério Israelita do Caju. Não há no entorno de sua lápide qualquer cerca-viva. Tornou impuro, nesta visão retrograda, seus companheiros de "última morada". A transferência dos restos mortais de D. Rebecca para o Cemitério Israelita de Inhaúma e a venda de seu espaço no Caju, tenho certeza, pagariam a recolocação das identidades de suas amigas. E, além disso, o Cemitério Israelita de Inhaúma poderia permanecer como um sítio histórico. Esse, creio, é o caminho mais justo, humano e digno.

A tradição judaica reconhece a democracia da morte estabelecendo que todos os judeus sejam enterrados com uma mortalha branca simples. Ricos ou pobres, todos são iguais neste momento final. Há quase 2.000 anos, Rabi Gamaliel instituiu essa prática e imbuída desse espírito, espero participar em breve, de uma descoberta da matzeivá coletiva, como a que o Rabino Soibel realizou para elas no Cemitério Israelita do Butantã. Naquele momento, rezaremos "El malê rachamim" em memória das mulheres sepultadas no Cemitério Israelita de Inhaúma. Que cada uma delas descanse em paz.

Para tal, nossa campanha deve ser trazer D. Rebecca do Caju para Inhaúma e fazer o que elas sempre fizeram por si: resolveram suas vidas sem pedir nada a ninguém!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O jornalista Osias Wurman – ex-presidente da Federação Israelita do Estado do RJ (FIERJ) e atual Vice-presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib)- mantem uma Newsletter - NOTÍCIAS DA RUA JUDAICA. Recebi nela essa notícia e respondi abaixo
Um abraço
B.

De: Beatriz Kushnir Enviada em: domingo, 13 de janeiro de 2008 23:55
Para: 'owurman - jornalismo'
Assunto: RES: NOTÍCIAS DA RUA JUDAICA - 13/01/08

Não podemos esquecer que no Rio há 797 lapides de judeus, abandonadas pela própria comunidade judaica. Refiro-me ao cemitério Israelita de Inhaúma.
Se responsabilizamos os vândalos no exterior e queremos sua punição, o que faremos aqui?
Um abraço
Beatriz Kushnir

"ALMAS VIOLADAS
Quatro jovens americanos, com idade entre 15 e 17 anos, foram detidos pela policia de New Brunswick, New Jersey-EUA, como autores da violação de 500 túmulos do cemitério judaico Poile Zedek Cemetery. O ato bárbaro teve inicio na noite do réveillon, e teve continuidade nos dias que se seguiram. A comunidade judaica da cidade de Brunswick ofereceu alta recompensa por informações sobre os autores, o que possibilitou a prisão dos suspeitos. Menores de idade, mas maiores em selvageria. Também na Europa, na Áustria, 25 túmulos judaicos foram violados no Cemitério Central de Viena- setor judaico. Uma verdadeira epidemia de ataques a cemitérios vem ocorrendo nos últimos meses, com destaque para 64 lapides destruídas em outubro no cemitério judaico da Sibéria e 100 túmulos foram grafitados em agosto num cemitério judaico no sul da Polônia, com suásticas e slogans nazistas."

sábado, 3 de novembro de 2007

Revista, jornal O GLOBO - 4/11/2007 [Ano 4, n. 171]

Apoie essa causa, assine a petição on-line clicando em:
Click na foto abaixo e você será direcionado ao site da Revista.
A matéria está nas páginas 20 e 21, leia, ou acesse:
Li, estarrecida, na matéria “Aqui jaz uma confusão”, publicada na Revista do jornal O GLOBO, [Ano 4, n. 171], de 4/11/2007, a afirmativa de que o Cemitério Comunal Israelita do Caju apresentou à prefeitura um plano de R$ 1,5 milhão para recuperar o Cemitério Israelita de Inhaúma. Tal ato tem dois objetivos:
  1. Imputar uma ordem moral aos mortos ali enterrados, os condenando após seus falecimentos e os cercando num muro, seja ele de que tamanho for, e
  2. Usurpar um terreno comprado, em 1912, pelos sócios e sócias da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita. Esses sócios NUNCA precisaram de qualquer auxílio da Comunidade Judaica para sobreviverem dignamente.

Fico me perguntando: de onde sairá tal quantia? Os possíveis novos enterros em Inhaúma jamais recuperariam esse investimento. Generosidade, não creio?
Há tanto por fazer na comunidade e a direção das entidades se queixa sempre de falta de verbas. Mas essa quantia substantiva seria assim destinada. Estranho, não?
Há algo muito bizarro em toda essa história. Mas posso garantir: apagar a memória daquelas mulheres, colocar um muro de qualquer tamanho, e tentar fazer novos enterros ali NÃO IRÃO conseguir!

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Revista de História On-line

Click na capa e leia:
"Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio. Lápides tem números, ao invés de nomes, e muro demarca a exclusão das "polacas", as prostitutas judias".

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Polacas do Cemitério Israelita de Inhaúma Petition

Apoie essa causa, assine a petição on-line clicando no link abaixo
Polacas do Cemitério Israelita de Inhaúma Petition

Muro no Cemitério

Deu na Coluna GENTE BOA, do jornal O Globo de 2/10/2007.


"A Federação Israelita do Rio e o Departamento de Cemitérios da Prefeitura se reúnem hoje para estabelecer normas no Cemitério Israelita de Inhaúma, o das polacas, tombado. A Fierj e a Sociedade Comunal Israelita querem construir muro entre as tumbas, impondo a norma judaica para o sepultamento de suicidas e prostitutas. Pesquisadoras como Beatriz Kushnir acham que seria condenação post mortem. No cemitério, criado pelas polacas em busca de um enterro digno, há prostitutas, seus filhos, maridos. Muitas vinham para o Brasil sem saber o que as aguardava. 'Querem apagar suas memórias', diz Kushnir".

domingo, 30 de setembro de 2007

Notícias da Rua Judaica, por Osias Wurman

Caro Osias,
Obrigada por divulgar aos seus leitores o tombamento do Cemitério Israelita de Inhaúma (
http://www.owurman.com/blog/). Um fato tão importante que não mereceu uma nota da Federação Israelita do Estado do RJ (FIERJ)...
O tombamento do cemitério não é inesperado. Aquele campo-santo está ausente de uma ação efetiva da FIERJ. Na década de 1980 o Dr. Siqueira (Z´L), então presidente da Sociedade Comunal Israelita, assumiu junto ao Departamento de Cemitérios da Prefeitura do Rio que o Comunal zelaria por Inhaúma, já que os sócios e sócias da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita estavam idosos e quase todos falecidos.
Nos últimos anos, contudo, o estado de abandono me fez várias vezes solicitar ao Departamento de Cemitérios a limpeza do local. Em fevereiro de 2007 fui impedida de entrar em Inhaúma. Constatei que o Cemitério estava trancado, algo que nunca ocorreu antes. Para tentar entender o que se passava, soube que a FIERJ apoiava uma iniciativa do Comunal de construir um muro separando as lápides existentes de um pequeno terreno ainda ocioso e que margeia a favela do Rato Molhado. Esse muro é para impor as normas judaicas de que prostitutas e suicidas são enterrados junto aos muros, demarcando sua exclusão. Para o Comunal, o muro tornaria aquele campo, um campo-santo. Como se ele já não o fosse. O terreno ocioso serviria para o enterro de quem não pode pagar por Vila Rosali, Vilar dos Telles, Nilópolis e/ou o Caju...
Por tudo que pesquisei sobre elas, não posso permitir que isso ocorra. Parias não! O estado de abandono, as lápides quebradas e sem identificação, pintadas de cal e violadas com colorjet preta chocam. E é para impedir que essa memória se apague, o decreto de tombamento.
O decreto de tombamento expõe, infelizmente, que mais uma vez falhamos nos nossos laços de solidariedade. Da mesma maneira que ouvi, tantas vezes, o relato de que senhoras iam aos portos avisar as moças do seu destino na prostituição, mas não lhes ofereciam outra opção; agora se recusam a zelar, de forma digna, pelo esforço descomunal de se manterem judeus apesar de tudo. Querem apagar suas memórias, misturando com outros enterros e descaracterizando aquele campo-santo!
Torço que a FIERJ e o Comunal venham à público anunciar o que a Chevra Kadish de São Paulo fez a quase 10 anos em Cubatão e no Butantã.
Um forte abraço
Beatriz Kushnir

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Cemitério Israelita de Inhaúma é tombado pela Prefeitura do Rio


Caros amigos,

O Decreto publicado no Diário Oficial do Município do RJ de hoje [24/9/2007] é a garantia legal que o Cemitério Israelita de Inhaúma será preservado de forma intacta. Não se farão alterações arquitetônicas, nem promoverão novos enterros sem a autorização expressa do Patrimônio Cultural da Prefeitura do Rio. O Cemitério Israelita de Inhaúma será resguardado enquanto o espaço de sepultamento dos sócios e sócias da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita – as famosas “polacas”.

Dói-me muito saber que não fomos capazes de resolver a questão internamente e que o poder público precisou agir. No último domingo, dia 16/9/2007, entre o Rosh Hashaná e Yom Kippur, os cemitérios judaicos pelo mundo recebem visitantes. Como faço há muitos anos, queria ir à Inhaúma acender velas e rezar um Kadish. O cemitério está trancado e preciso fazer um balé de negociações para garantir a minha entrada. Ninguém mais além de mim e de meus amigos foram até lá. Pessoas que desconhecem a história de quem está ali dizem se eu posso isso ou aquilo...

Assustei-me com o estado de abandono do lugar, das lápides pintadas com cal e numeradas com colorjet preta, mesmo que existam informações em sua base. Cresce o número de sepulturas sem identificação, mesmo que eu venha constantemente dizendo onde está o documento que recoloca as identidades nos túmulos...

Se Yom Kippur é uma permissão religiosa e cultural que nos concedemos para fazer um balanço de nossas vidas, expurgar nossos erros e zerar trajetórias, que esse Decreto, no primeiro dia útil depois de feriado sagrado seja encarado como a possibilidade de transformação. Kippur é um exercício de compaixão, de compartilhar o sentimento.

Que comecemos o ano de 5768 aprendendo com o exemplo da Chevra Kadisha de São Paulo, que restaurou e cuida do Cemitério Israelita de Cubatão e das lápides no Butantã. Que possamos finalmente dar uma resposta digna ao passado, não nos envergonhando dele e nem tentando, pelo abandono, destruí-lo. Recoloquemos as lápides de Inhaúma e tornemos aquele cemitério um lugar aprazível. Respeitemos o esforço descomunal dos que o fundaram e o mantiveram e, principalmente, dos 797 corpos ali sepultados.
Coloco-me, como sempre o fiz, à disposição para ajudar a realizar tal tarefa.
Um abraço
Beatriz Kushnir
==================

DECRETO N.º 28463 DE 21 DE SETEMBRO DE 2007

Determina o tombamento provisório do Cemitério Israelita de Inhaúma, situado na rua Piragibe, n.º 99, no bairro de Inhaúma.

O PREFEITO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, no uso de suas atribuições legais e,

considerando a importância dos cemitérios como registro da evolução histórica e social da Cidade do Rio de Janeiro;

considerando que o Cemitério Israelita de Inhaúma é um marco particular no âmbito dos campos santos da Cidade do Rio de Janeiro;

considerando que a sua fundação em 1916, pela Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita, representou um papel social relevante para uma parcela da população de imigrantes israelitas no país;

considerando que a permanência deste testemunho físico constituirá em um legado a ser perpetuado na memória da Cidade do Rio de Janeiro; e

considerando a necessidade de adotar medidas cautelares para a proteção do referido imóvel;

DECRETA

Art. 1.o Fica tombado provisoriamente, nos termos do Art. 5.o da Lei 166, de 27 de maio de 1980, o Cemitério Israelita de Inhaúma, situado na Rua Piragibe, n.º 99, no Bairro de Inhaúma.

Art. 2.o Quaisquer intervenções físicas a serem realizadas no referido imóvel deverão ser previamente aprovadas pelo Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro.
Art. 3.o Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2007 - 443o ano de fundação da cidade.

CESAR MAIA

sábado, 18 de agosto de 2007

RJTV 2ª EDIÇÃO
Memórias que o tempo tratou de apagar
Anti-semitismo expulsa mulheres de seus países e elas acabam prostituindo-se no Brasil. Marginalizadas, até mesmo um cemitério próprio tiveram de construir. Esta memória começa a ser resgatada

Assista o vídeo

Se não conseguir, digite:
http://rjtv.globo.com/RJTV/0,19125,VRV0-3114-296927-20070818,00.html
=============
A luta de imigrantes judias para enfrentar o preconceito começa a ser reconhecida, mais de cem anos depois da chegada dessas mulheres ao Rio de Janeiro.Nomes, em hebraico, gravados em uma pedra, guardam um pouco da história da imigração no Brasil e dos conflitos vividos pela sociedade da época.Eles identificam as polacas, mulheres pobres, judias, que abandonaram seus países de origem, ameaçadas pelo anti-semitismo e trabalharam como prostitutas nas ruas do Rio de Janeiro.Discriminadas, as polacas viviam à margem da sociedade. Eram proibidas de freqüentar sinagogas e nem mesmo seus enterros podiam acontecer em cemitérios comuns. Por isso, elas se reuniam em entidades próprias. Em 1906, fundaram uma associação e depois um cemitério, em Inhaúma, na Zona Norte, um dos poucos registros ainda existentes da passagem dessas mulheres pelo Rio.Há 37 anos, os sepultamentos foram suspensos no cemitério e os visitantes quase não aparecem.A memória se perde no tempo, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, que estudou a vida das polacas.“Elas fizeram um esforço muito grande para se manterem e permanecerem judias. Nós precisamos respeitar isso”, explicou a historiadora Beatriz Kushnir.Na sexta-feira, a comunidade judaica se reuniu para lembrar as polacas do Rio. O local escolhido para a homenagem foi a Fundição Progresso, em meio à boemia da Lapa, no Centro da cidade.“Durante a cerimônia do sábado, ao anoitecer da sexta-feira, fizemos uma oração que pudesse resgatar a luta dessas mulheres, mesmo em condição tão difícil para manter a sua dignidade e preservar as suas raízes, a sua cultura, a sua identidade”, disse o rabino Nilton Bonder.

Nomear é conhecer: as lápides das polacas no Cemitério Israelita de Inhaúma

Alguns meses atrás recebi um e-mail do Silvio Tendler me pedindo que auxiliasse o Rabino Bonder no shabat em homenagem aos judeus que lutaram contra a ditadura. Não conhecia pessoalmente o Rabino e na troca de correspondências, lhe fiz um pedido: um shabat para as polacas. Isto porque, vivia uma dor inominável: profanaram o meu direito sagrado de visitar um cemitério que conheço desde 1969. Havia sido impedida de adentrar ao Cemitério Israelita de Inhaúma. Os planos para aquele terreno me fizeram solicitar ao Rabino essa ajuda.
Por alguns anos estudei a história de um grupo de imigrantes judeus em algumas cidades do Brasil e mesmo fora dele. Por curiosidade fiz as contas e percebi que há vinte anos me sinto debruçada e envolvida por essas trajetórias. Refiro-me as moças judias prostitutas que ficaram conhecidas como polacas. Meu trabalho foi também uma caminhada envolta em paixão. Enamorei-me por essas narrativas e desejei muito que um trabalho acadêmico pudesse interferir e transformar uma dada realidade. De muitas maneiras, posso dizer que carrego orgulhosa essa glória, dividida certamente com muitos que pelo caminho também se apaixonaram por elas.
Quando comecei a pesquisa, em 1988, era um tabu mencionar essa história. Seria difícil imaginar um ato como esse naqueles tempos. Parece que vivemos outros momentos hoje, felizmente. Será? Torço que sim. Espero que a noite de hoje não seja uma ato isolado e único dentro do calendário de shabat externos. Confio que os que aqui vieram estejam estabelecendo um pacto de solidariedade com elas. Um acordo que exige ação. Portanto, me sinto muito gratificada por não ter desistido, idéia que sempre se mostrou para mim muito longínqua. “Não, não pode”, expressão que tanto ouvi, constroem em mim uma força contraria. Se acharem que não pode, ai é que quero mais.
Em um país que editar uma tese já é um milagre, fazê-la um agente transformador é algo inominável. A cada palestra que eu era convidada a falar sobre as polacas, sublinhava o estado lastimável dos seus cemitérios e descortinava um passado, obrigando os que me ouviam a adentrar em um espaço envolto por mistérios e segredos desnecessários. Assim, em 1997, 10 anos atrás, eu escrevi um artigo para o jornal paulista Resenha Judaica, sobre a restauração do cemitério israelita de Cubatão, que ficou três décadas abandonado e pertenceu à Sociedade Beneficente e Religiosa Israelita de Santos (SBRI de Santos), e foi restaurado pela Sociedade Cemitério Israelita Chevra Kadisha de São Paulo, em cooperação com a Prefeitura de Cubatão. Ali há 75 sepulturas, 55 de mulheres e 20 de homens, sendo a mais antiga de 1924 e a mais recente de 1966. Todas são de origem judia que tiveram como ofício a prostituição e a cafetinagem no baixo meretrício santista, onde atuaram até a década de 1960.[1]
Em 1998, o diretor teatral Iacov Hillel encenou, em São Paulo, uma peça sobre as polacas. Naquela época escrevi um texto para ser publicado no programa da peça. Esse terminava com um desejo:

"Entendo que só há uma justificativa para retornar à temática das polacas seja em um estudo acadêmico, em um romance ou em uma peça: esta é a hora de exorcizar demônios. Não que elas o sejam, mas é como alguns de nós as encaram. Podermos nos ver, nós judeus, como um grupo cujo perfil é múltiplo, auxilia a vivenciar a identidade judaica como um prazer e não como uma dor. Que essa peça, ora em cartaz, nos faça repensar o lugar que as polacas ainda têm junto à comunidade judaica. E que, principalmente, nos faça entender que é chegado o momento de recolocarmos seus nomes nas lápides do Cemitério Israelita do Butantã".

Meses depois, de forma clara e serena, firme e decisiva, o então presidente da Chevra Kadisha de São Paulo, Marcos Zlotnik, me convidou a ajudá-lo a colocar os nomes nas lápides das polacas que estão no Cemitério Israelita do Butantã. Isto porque, no fim dos anos de 1960 as sócias da Sociedade Feminina Religiosa e Beneficente Israelita (SFBRI), já idosas e sem poderem cuidar umas das outras, transferiram as sócias asiladas na entidade para o lar dos velhos da comunidade judaica de São Paulo, no bairro de Vila Mariana. O cemitério comprado pela SFRBI no bairro de Santana/Chora Menino e inaugurado em 1928 foi desapropriado no início da década de 1970. O estado de abandono, a ausência de responsáveis pela SFRBI e as necessidades do cemitério católico ao lado, definiram esse ato. Pelos dados do departamento de Cemitérios da Prefeitura de São Paulo, haviam ali 233 corpos enterrados. Vinte e quatro desses foram reclamados por familiares, sendo dezoito transferidos para o Butantã e seis para cemitérios católicos na cidade. O restante foi colocado em fileiras de lápides sem identificação na quadra 136 do setor "N" do Cemitério Israelita do Butantã. Essa situação permaneceu por vinte e sete anos.
No dia 27 de fevereiro de 2000, a meu pedido, realizou-se naquele cemitério uma reza: a inauguração das lápides das sócias da SFBRI. O hazan David R. Hullock e depois o Rabino Henry Sobel comandaram esse ato religioso. No mesmo dia em que fizeram a descoberta da Matzeiva de Leon Feffer. Ou seja, vinte e sete anos depois cada uma das mulheres e homens enterrados naquela quadra receberam nas suas lápides o seu nome e a sua data de falecimento.
Ao me referir aqui ao Rabino Sobel, presto uma homenagem a esse amigo de tantas horas e que, por fim, nos mostrou algo tanto caro aqui: os limites do humano em cada um de nós.
Sempre imaginei que recolocar os nomes nas lápides do Butantã seria o ponto final do meu trabalho, o resgate material daquelas identidades. Mas percebi que não há atos isolados. Ao assentar os nomes completos nas lápides, pode-se conhecer uma faceta de suas identidades. Entretanto essa não se esgota nesse ato e não nos faz conhecê-los. A única forma de tê-los um pouco mais completos é mergulhando nas suas histórias.
Nomear, conhecendo, é de outra ordem. Assim, creio que a investida deve se preocupar menos com a "lista de nomes" e os possíveis sobrenomes conhecidos. A glória ou não de muitos ao verem o seu "nome de família" ou o de um amigo ali e ficar preso a esse dado é não ter, infelizmente, a grandeza de espírito para inclinações mais densas. O nome naquelas lápides não é um ato de curiosidade para os vivos que ali vão olhá-los. É sim um presente póstumo para quem ali está. Em cada lápide, não se esqueçam, há os restos de um corpo, de uma história, de uma vida.
Nesses vinte anos, presenciei de tudo um pouco. De pessoas tento crises histéricas, durante minhas palestras se dizendo filhas, netas, sobrinhas das polacas, a ligações telefônicas estranhas, de possíveis descentes. Quase sempre, histórias fantasiosas. Não é na ligação de sangue que está a herança. O nosso compromisso com elas transcende o DNA. Chegar até elas sempre foi meu objetivo maior. Até que um dia escutei a seguinte frase: “Ah, você quer saber quem somos nós” ?
Foi assim que o meu encontro com Zelda, uma senhora octogenária que veio dar corpo e voz a uma pesquisa. Deparei-me, literalmente, com Zelda e sua irmã, Celina[2], em um domingo de sol no final de setembro de 1993, entre o Rosh Hashaná e o Iom Kipur, quando os vários cemitérios judeus por todo o mundo ficam lotados. Mantendo tal costume, tais senhoras estavam visitando seus mortos.
Em um cemitério onde estão enterrados um total de 797 corpos, entre homens, mulheres e crianças vinculados à Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita, fundada em 1906 e que comprou em 1912, o terreno daquele cemitério, o primeiro israelita da cidade. Para Zelda e Celina, elas sim filhas de uma polaca, diferente das narrativas fictícias que vieram ao meu encontro, foi muito difícil contar o que se passou.
Na história da minha história em busca das polacas encontrei narrativas que falavam de seres humanos e suas vivências dos percalços e das alegrias do dia-a-dia. O mais bonito, certamente, é que para onde emigraram, fundaram sociedades que mimetizavam o mundo judaico do qual estavam alijadas. Mulheres do seu tempo, quando não tinham miniam, contratavam. Como também o faziam para terem um hazan/rabino que conduzisse o serviço religioso.
Meu trabalho pode trazer a fala dessas sociedades. Não escutei alguém falar sobre elas. Quis que elas falassem de si. E consegui. O lema da sociedade carioca fala por si. Eram as irmãs dos Cheised chel emes: da caridade de verdade, aquela que não deseja recompensa.
Nessas horas me lembro sempre de dona Rebecca, a última polaca carioca, a Quarta Irmã Superiora, que morreu com 103 anos em 1984 e que, certamente não por sua vontade, está no Cemitério Israelita do Caju e não em Inhaúma. Em uma conversa com o jornalista Zevi Ghivelder ela afirmou saber que era fruto de uma circunstância e soube vivê-la. Jamais se viu vítima. Não eram. Não há enganos. Há os limites do humano, até porque, a maior parte dos bordeis na Europa Oriental pertencia aos judeus. Não lhes era uma profissão desconhecida.
O meu desejo de trazer a história desse grupo e de, principalmente, deixá-los falar, passou necessariamente por escolhas difíceis. Meu compromisso foi sempre o de respeitar as suas vontades. Seguindo esta trilha, não há codinomes em meu trabalho, como também agora não existem identidades arrancadas nas lápides do Butantã e de Cubatão. Isto porque, elas também não usavam nomes falsos. Assinaram em todas as atas das suas sociedades de ajuda mútua que vi, das diferentes sociedades que analisei, os seus nomes completos. No Rio, quando casavam, muitas vezes com não judeus, acrescentaram aos seus nomes o sobrenome do amado, de maneira clara. Em São Paulo, se contraíram matrimonio fora do grupo religioso, continuaram a identificar-se com os seus nomes e sobrenomes judaicos, e hoje, homens não judeus estão nas lápides do Butantã. Vieram com elas de Santana/Chora Menino[3].
Mas conhecer suas identidades só faz sentido quando sabemos de quem estamos falando. Mais do que nomes ao vento, histórias de vida. Pelo meu desejo sincero de ter podido contribuir para esse conhecer, gostaria de concluir com as palavras do Rabino Sobel na reza do dia 27 de fevereiro, torcendo que estas sejam palavras proféticas e que possam, em breve, também serem ditas no Cemitério Israelita de Inhaúma, hoje trancado pela Sociedade Comunal Israelita com o apoio da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro.

"rezamos hoje 'El malê rachamim' em memória das mulheres sepultadas nesta área do cemitério. Que cada uma delas descanse em paz."

----------
Notas:
[1] Devo a Robert Pechman (IPUR/UFRJ) a menção desse local e a Felipe Doctors as fotos do local em 1970.
[2] Estes não são seus verdadeiros nomes, mas a forma encontrada, segundo o pedido das entrevistadas, para preservar suas identidades.
[3] Mapeei cinco sociedades de ajuda mútua fundadas por estes homens e mulheres nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Buenos Aires e Nova York. Provavelmente estas não foram as únicas entidades fundadas por estes judeus e judias envolvidos com a prostituição. Em cada cidade onde o mercado era propício às exóticas moças judias, também devem ter existido suas sociedades, suas sinagogas e seus cemitérios próprios. O objetivo destas instituições era o de manter, na prática do cotidiano destes homens e mulheres, a identidade religiosa, já que o convívio com as comunidades judaicas locais lhes era proibido e as demais instituições comunitárias judaicas não permitiam sua participação.

RJTV 1ª EDIÇÃO - 18/8/2007

Polacas são homenageadas pela comunidade judaica

No século XX, prostitutas de origem judaica migraram para a cidade para escapar do anti-semitismo. Cemitério em Inhaúma guarda os corpos destas mulheres. Cerimônia homenageia a memória das polacas

Assista o vídeo

Se não conseguir, digite:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM716023-7823-POLACAS+SAO+HOMENAGEADAS+PELA+COMUNIDADE+JUDAICA,00.html


Uma reparação histórica. Mulheres judias, que viveram excluídas da sociedade carioca, no início do século passado, foram lembradas com orgulho numa cerimônia organizada pela Congregação Judaica do Brasil.


Não foi numa sinagoga, mas na Fundição Progresso, em meio à boemia da Lapa, que a comunidade judaica realizou uma cerimônia em homenagem às polacas. Assim ficam conhecidas as prostitutas de origem judaica que vieram para o Brasil há mais de um século, fugindo do anti-semitismo. Elas buscavam uma vida melhor, mas encontraram discriminação e um lugar à margem da sociedade. É no bairro de Inhaúma, na Zona Norte da cidade, que ficam um dos poucos registros ainda existentes da passagem das polacas pelo Rio. Neste cemitério eram enterrados os corpos das prostitutas judias e de seus parentes. Há 37 anos não há mais sepultamentos e poucas pessoas visitam o lugar. Algumas lápides estão sem nome. É a memória que se perde com o abandono, diz a historiadora Beatriz Kushnir, que pesquisou o passado destas mulheres. Discriminadas, excluídas do convívio social, elas se reuniam em associações próprias. O cemitério em Inhaúma foi criado porque elas não podiam ser sepultadas ao lado de outros judeus. “Na lei judaica, as prostitutas e os suicidas devem ser enterrados junto a um muro, para marcar um local de exclusão. E foi pra sair deste lugar que essas mulheres no mundo inteiro compravam o seus próprios cemitérios”, afirma Beatriz Kushnir.O rabino Nilton Bonder explica a razão da homenagem tantos anos depois. “Quisemos fazer um ato de inclusão e portanto durante a cerimônia do sábado, que é no início do anoitecer da sexta-feira, fazemos uma oração que pudesse resgatar a luta dessas mulheres, mesmo em condições tão difíceis, de manter a sua dignidade e de preservar as suas raízes, a sua cultura, sua identidade”. A cerimônia religiosa, que não pôde ser filmada, foi conduzida apenas por mulheres.

SHABAT ESPECIAL - A NOIVA E O EXÍLIO

Esta cerimônia foi uma “encomenda” minha ao Rabino Nilton Bonder. Estarei lá e a convite do rabino, farei uma explanação. É aberto a todos, judeus ou não.

SHABAT ESPECIAL - A NOIVA E O EXÍLIO

Feminino pelo Feminino -
Entre o Sagrado, o Humano e o Profano. Um shabat em memória da luta pelo sagrado empreendido pelas judias polacas do início do século XX no Rio de Janeiro. Neste Kabalat Shabat especial seremos conduzidos por mulheres numa homenagem à luta que as judias vítimas do tráfico de mulheres no século passado empreenderam para não se dissociar de suas raízes judaicas. Criadoras da primeira sinagoga regida e administrada por mulheres, muito antes de qualquer grupo liberal ou reformista no mundo, foram também pioneiras na criação de um cemitério judaico, o cemitério de Inhaúma. Um Shabat imperdível e uma missão muito especial: incluir na memória e no sagrado capítulos difíceis e controversos de nossa história judaica em terras cariocas.Um Shabat especial conduzido por mulheres.

Dia 17 de Agosto
Fundição Progresso
18:45 h

terça-feira, 29 de maio de 2007

domingo, 25 de março de 2007

DO ESQUECIMENTO À MEMÓRIA: A restauração do Cemitério Israelita de Cubatão

Beatriz Kushnir
[Do esquecimento à memória: a restauração do cemitério israelita de Cubatão”. Jornal Resenha Judaica/Caderno Resenha Cultural, São Paulo, 2/5/1997, pp. 1 e 4]







Após quase três décadas de abandono, um cemitério considerado de párias está sendo restaurado e em breve será reaberto à visitação. Um local socialmente percebido como sagrado, por pertencer aos mortos, foi, nesse caso, por muitos identificado como a materialização de um pecado. Refiro-me ao cemitério israelita de Cubatão, que pertenceu a Sociedade Beneficente e Religiosa Israelita de Santos (SBRI de Santos), que está sendo restaurado pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo Chevra Kadisha, em cooperação com a Prefeitura de Cubatão.
Ali estão enterrados cerca de 15 homens e 60 mulheres de origem judia que tiveram como ofício a prostituição e a cafetinagem no baixo meretrício santistas, onde atuaram até a década de 60. São elas as famosas polacas. As polacas deixaram há muito de serem personagens desconhecidos tanto da comunidade judaica como fora dela.
Há alguns anos venho estudando a história deste grupo, em algumas cidades do Brasil, e mesmo fora dele. Meu olhar buscou seus universos fora do espaço do baixo meretrício, seu local de trabalho, voltando-se para a seguinte questão: como um grupo marginalizado, tanto pelos legisladores da cidade como pela comunidade judaica, recriou redes de solidariedade e sociabilidade que lhes definiu uma identidade social e uma auto-imagem positivas?
Para tanto, era preciso abandonar opiniões e julgamentos pré-concebidos e deixar que elas mesmas narrassem suas histórias. O desejo de trazer a história desse grupo e de, principalmente, deixá-los falar, passou necessariamente por escolhas difíceis. Meu compromisso foi sempre o de respeitar as suas vontades. Seguindo esta trilha, não há codinomes em meu trabalho. Isto porque, elas também não os usavam. Assinaram em todas as atas que vi das diferentes sociedades que analisei, utilizando seus nomes completos. No Rio, quando casavam, muitas vezes com não judeus, usavam seus nomes de maneira clara. Em São Paulo, se contraíram matrimonio fora do grupo religioso, continuaram a identificar-se com os seus nomes e sobrenomes judaicos.
Assim, mapeei cinco sociedades de ajuda mútua fundadas por estes homens e mulheres nas cidade do Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Buenos Aires e Nova York.. Provavelmente estas não foram as únicas entidades fundadas por estes judeus e judias envolvidos com a prostituição. Em cada cidade onde o mercado era propício às exóticas moças judias, também devem ter existido suas sociedades, suas sinagogas e seus cemitérios próprios. O objetivo destas instituições era o de manter, na prática do cotidiano destes homens e mulheres, a identidade religiosa, já que o convívio com as comunidades judaicas locais lhes era proibido e as demais instituições comunitárias judaicas não permitiam sua participação.
Foi para mimetizar esses locais judaicos que lhes eram proibidos e para garantir assistência na velhice e na doença, que as polacas, seus amigos e/ou maridos (judeus ou não), fundaram suas entidades de ajuda mútua, que muitas vezes mantinham sinagogas e cemitérios próprios, e que tinham como objetivo também a ajuda aos associados na velhice ou na doença. E foi dos corpos documentais dessas sociedades, de suas atas e estatutos, que eu “reconstituí”, na medida do possível, os seus mundos privados, o universo de suas vidas fora de seu trabalho. Meu desejo foi o de encontrar, através destes documentos, seus rostos e suas falas.
Muitas vezes as pessoas que se voltaram a este capítulo da história dos judeus no Brasil ocultaram, em seus trabalhos, os nomes dos envolvidos com a prostituição - que foram uma pequena minoria dentro da comunidade judaica. Justificam essa atitude como preservando a identidade dos descendentes das polacas, e condenam a atitude que eu tive em meu trabalho, de não esconder os nomes e sobrenomes dessas mulheres e homens. Pois bem, eu conheci e entrevistei filhos e filhas de polacas. Diferentemente do que o senso comum dita, essas pessoas parecem estar em paz com suas histórias e me deram declarações lindíssimas. Então, por que esconder as polacas? Talvez porque, para uma parcela da comunidade judaica, nossa identidade é um dado, e nesse somos os “escolhidos de Deus”. Portanto, acham que não pode haver entre nós pessoas que tenham vivido de ocupações moralmente condenáveis.

Na história da minha história em busca das polacas encontrei narrativas que falavam de seres humanos e suas vivências das circunstâncias da vida. O mais bonito, certamente, é que para onde emigraram, fundaram sociedades que mimetizavam o mundo judaico do qual estavam alijadas. O lema da sociedade carioca fala por si. Eram as irmãs dos Cheised chel emes: da caridade de verdade, aquela que não deseja recompensa.
As polacas de Santos - No início da minha pesquisa, no final dos anos 80, e ao longo do trabalho, encontrei tanto pessoas dispostas a ajudar quanto verdadeiras muralhas a transpor. O historiador carioca Robert Pechman, do IPUR/UFRJ, contou-me que escreveu, em meados dos anos 70, uma reportagem sobre da história da comunidade judaica de Santos para a revista paulista Shalom. Durante esse trabalho, localizou o cemitério israelita de Cubatão. Contudo, as referências a essa parcela da comunidade judaica local foram censuradas pela revista...
Talvez seja de Pechman o mérito de ter “descoberto” o cemitério, fundado pela Sociedade Beneficente e Religiosa Israelita de Santos (SBRI de Santos). Pouco se sabe sobre esta sociedade, que congregava as polacas de Santos, e que mantinha o cemitério que ora vem sendo restaurado pela Chevra Kadisha de São Paulo.. Ao contrário do que aconteceu com os livros de atas das socidades de beneficência e assistência mútua das polacas de São Paulo e do Rio, os livros de atas das reuniões da sociedade de Santos não foram por mim localizados, à exceção de um, encontrado no Lar Golda Meir, referente à ata da Assembléia Geral Extraordinária, de 3 de dezembro de 1966.
Semelhante às entidades de São Paulo e do Rio, a SBRI de Santos tinha por finalidade a assistência e auxílio aos associados nos momentos difíceis, manutenção de uma sinagoga, onde se celebrava as principais festas, e de um cemitério para homens e mulheres judias que se ocuparam do baixo meretrício. No início dos anos 60, elas já viviam o fim de sua associação, com o falecimento de seus sócios e a impossibilidade de equilibrar receita e despesas.
Nesta ata por mim localizada, referente à assembléia da SBRI de Santos, em dezembro de 1966 na sede da
sociedade, convocada a partir de anúncio na "imprensa local e de São Paulo", estava em pauta a venda da sede social da entidade:
"em virtude de a receita da Sociedade estar bastante reduzida, por motivos e causas várias, notadamente pelo falecimento e mudança de domicílio de sócias, tem sido penoso à Diretoria a realização do objeto social. Tem sido possível atender aos fins da Entidade, mediante donativos. Há compromissos financeiros, porém, que atender com urgência. E, nessa emergência, não encontrou a Diretoria outra solução, senão a venda de propriedade da Sociedade situado nesta cidade (Santos), na Rua Amador Bueno nº 322, apurando-se numerário suficiente para a satisfação desses compromissos, como por exemplo, a construção de túmulos, necrotério etc. na parte do cemitério de Cubatão, doado pela Prefeitura Municipal à nossa Sociedade e possibilitando ainda, ampliar a assistência que vem prestando aos sócios e a realização de obras estatutárias."
Dirigiram os trabalhos desta assembléia:
Presidente da Mesa - Cecilia Oistrag Centofanti
Secretária - Regina Goodman Rothenberg
Escrutinadora - Joana Schlinberg
Escrutinadora - Rachel Waisman
Com a aprovação da venda, a sociedade passou a sediar-se na residência de sua presidente. Esta situação de declínio vivida pela SBRI de Santos em muito se assemelha às das sociedades de outras cidades. A sociedade santista foi lembrada, em seus áureos tempos, segundo os vizinhos de sua sinagoga, como contou Pechman, destacando que "[no passado, durante os] feriados judeus elas organizavam enormes festejos que chegavam a durar três dias. Naquelas datas elas traziam rabino e 'hazan' de São Paulo”.
A sócia Sarah Michelin, talvez lembrando-se deste tempo distante, apoia a venda da sede "para que a Sociedade não venha a perecer em futuro próximo", o que infelizmente acaba ocorrendo.
Esta ata de 1966 na verdade marca o ponto de partida de um processo de deterioração do cemitério israelita de Cubatão. É deste ano, também, o último sepultamento ali realizado. A partir de então, em decorrência da dissoução da Sociedade, causada pela morte da maior parte de seus sócios e pela decorrente falta de recursos, o lugar praticamente caiu em abandono.
Sua recuperação e futura conservação pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo Chevra Kadisha, entretanto, estará preservando a história das vidas destas mulheres qu
e, apesar de marginalizadas da sociedade judaica, soouberam e quiseram preservar sua identidade judaica.
Não somos nada, nos fazemos diariamente, escolhendo e dando perfil ao conjunto do qual queremos fazer parte. E isso as polacas souberam fazer. Colocadas à margem da coletividade, recriaram um mundo solidário nas suas sociedade de auto-ajuda. Não precisaram que ninguém lhes dissessem que eram judias. Se fizeram judias nas práticas do seu dia-a-dia. Sabiam que eram fruto de uma circunstância de miséria e exclusão do mercado de trabalho formal. Souberam viver essa diversidade e morreram preservando os ritos judaico.
Da memória ao esquecimento - Em São Paulo, as polacas foram mais numerosas do que em Santos, e sua história é melhor documentada. Os livros de atas da Sociedade Feminina Religiosa e Beneficente Israelita (SFRBI), que as congregava, encontram-se nos arquivos do Lar Golda Meir, onde algumas das sócias passaram a residir na velhice. Na década de 1960 foi firmado um acordo com o Lar, que fez com que os fundos obtidos pela venda da sede social da SFRBI, à Rua Ribeiro de Lima 44, fossem transferidos para o Lar Golda Meir que, em troca, comprometia-se a abrigar as sócias em sua velhice.
Por outro lado o cemitério da Sociedade, localizado junto ao cemitério do Chora Menino, no bairro de Santana - também abandonado, na década de 60 - acabou desapropriado e demolido pela prefeitura em 1971. Nada resta das lápides, da casa de Tahara ou de um comovente monumento que, neste campo santo, relembrava os seis milhões de judeus assassinados durante a Shoá.

Os ossos - ou o que deles restava - foram transferidos para o Cemitério do Butantã, mas estão sob 255 pequenas lajotas de cimento, de cerca de um metro de comprimento, sem qualquer menção aos nomes destes homens e mulheres. Estão enterrados como indigentes. Sua memória foi inteiramente obliterada pela intolerância de uma sociedade que os discriminou em vida e parece querer esquecê-los depois da morte.
O trabalho de restauração do Cemitério Israelita de Cubatão é um feito a ser comemorado com alegria. Mas é oportuno lembrar, neste momento, que existe uma dívida para com as memórias das vidas dos homens e mulheres cujos corpos vieram do Cemitério Israelita de Santana, e cuja lembrança, ao contrário do que agora acontece com a dos mortos de Cubatão, e à revelia de seus esforços para se manterem judeus em vida e depois da morte, foi aniquilada.
==================
"O Cemitério Israelita de Cubatão (62 km a sudeste da capital), na Baixada Santista, é constante objeto de interesse histórico. Com 75 sepulturas, 55 de mulheres e apenas 20 de homens – a mais antiga de 1924 e a mais recente de 1966 –, já foi tema de pesquisa acadêmica na UniSantos e é freqüentemente visitado por escolas. A curiosidade se deve ao fato de lá estarem enterradas em sua maioria as chamadas polacas, mulheres judias que, no início do século 20, deixaram o Leste Europeu atingido pelo anti-semitismo em direção à América e acabaram sendo exploradas na região. “Ainda hoje, o cemitério recebe a visita de antigas amigas daquelas mulheres”, diz Maria Salete Otama Onady, responsável pela manutenção do campo-santo. No livro Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição, as polacas e suas associações de ajuda mútua (ed. Imago), a historiadora Beatriz Kushnir relata a saga dessas imigrantes ao desembarcarem em Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Nova York.
MEMÓRIA – Quando a Chevra Kadisha assumiu o Cemitério Israelita de Cubatão, em 1996, o local se encontrava em completo estado de abandono, com sepulturas deterioradas e solo quebradiço. As obras de restauração do campo-santo foram executadas entre 1996 e 1997, na gestão de Marcos Zlotnik, e incluíram o conserto dos túmulos, a recuperação das matzeivot, ajardinamento, pavimentação das ruas, instalação de lavatório, colocação de placa indicativa no portão e de local apropriado para o acendimento de velas. Ainda no exercício de 1997, o campo-santo, que ocupa uma área de 853 metros quadrados anexa ao cemitério católico, foi reinaugurado. Desde então está em perfeito estado, com plantas floridas, solo ajardinado e sepulturas limpas.
Assim, além dos cemitérios de Vila Mariana, Butantã e Embu, a Chevra Kadisha cuida também da manutenção do de Cubatão, preservando de forma digna a memória de todos os integrantes de nossa comunidade. Localizado na rua São Vicente, s/n, no bairro Fazenda Cafezal, o Cemitério Israelita de Cubatão pode ser visitado de domingo a quinta, das 8 às 18h, e às sextas-feiras, das 8 às 16h. É necessário apenas solicitar a abertura do portão junto à administração do cemitério católico".

quinta-feira, 22 de março de 2007

Nomear é conhecer

Beatriz Kushnir, "Polacas voltam a ter nomes no Cemitério Israelita do Butantã”. Revista A Hebraica, São Paulo, Ano XLI, n.º 458, abril de 2000, pp. 48-51.
Por
alguns anos estudei a história de um grupo de imigrantes judeus em algumas cidades do Brasil e mesmo fora dele. Por curiosidade fiz as contas e percebi que fazem doze anos que me sinto debruçada e envolvida por essas trajetórias. Refiro-me as moças judias prostitutas que ficaram conhecidas como polacas. Meu trabalho foi também uma caminhada envolta em paixão. Enamorei-me por essas narrativas e desejei muito que um trabalho acadêmico pudesse interferir e transformar uma dada realidade. De muitas maneiras, posso dizer que carrego, orgulhosa essa glória, dividida certamente com muitos que pelo caminho também se apaixonaram por elas. Quando comecei a pesquisa, em 1988, era um tabu mencionar essa história. Outros tempos vivemos hoje felizmente, e me sinto muito gratificada por não ter desistido, idéia que sempre se mostrou para mim muito longínqua.
Em um país que editar uma tese já é um milagre, fazê-la um agente transformador é algo inominável. A cada palestra que era convidada a falar sobre as polacas, sublinhava o estado lastimável dos seus cemitérios e descortinava um passado, obrigando os que me ouviam a adentrar em um espaço envolto por mistérios e segredos desnecessários. Assim, em 1997 eu escrevi um artigo para o jornal paulista Resenha Judaica, sobre a restauração do cemitério israelita de Cubatão, que ficou três décadas abandonado e pertenceu à Sociedade Beneficente e Religiosa Israelita de Santos (SBRI de Santos), e foi restaurado pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo Chevra Kadisha, em cooperação com a Prefeitura de Cubatão. Ali estão enterrados cerca de 15 homens e 60 mulheres de origem judia que tiveram como ofício a prostituição e a cafetinagem no baixo meretrício santista, onde atuaram até a década de 1960.[1]
Dois anos depois, em 1999, o presidente da Chevra Kadisha, Marcelo Kochen, me convidou a ajudá-lo a colocar os nomes nas lápides das polacas que estão no Cemitério Israelita do Butantã. Isto porque, no fim dos anos de 1960 as sócias da Sociedade Feminina Religiosa e Beneficente Israelita (SFBRI), já idosas e sem poderem cuidar umas das outras, transferiram as sócias asiladas na entidade para o lar dos velhos da comunidade judaica de São Paulo, no bairro de Vila Mariana. O cemitério comprado pela SFRBI no bairro de Santana e inaugurado em 1928 foi desapropriado no início da década de 1970. O estado de abandono, a ausência de responsáveis pela SFRBI e as necessidades do cemitério católico ao lado, definiram esse ato. Pelos dados do departamento de Cemitérios da Prefeitura de São Paulo, haviam ali 233 corpos enterrados. Vinte e quatro desses foram reclamados por familiares, sendo dezoito transferidos para o Butantã e seis para cemitérios católicos na cidade. O restante foi colocado em fileiras de lápides sem identificação na quadra 136 do setor "N" do Cemitério Israelita do Butantã. Essa situação permaneceu por vinte e sete anos.
No dia 27 de fevereiro de 2000, a meu pedido, realizou-se naquele cemitério uma reza: a inauguração das lápides das sócias da SFBRI. O hazan David R. Hullock e depois o rabino Henri Sobel comandaram esse ato religioso. Ou seja, vinte e sete anos depois cada uma das mulheres e homens enterrados naquela quadra receberam nas suas lápides o seu nome e a sua data de falecimento. Sempre imaginei que esse seria o ponto final do meu trabalho, o resgate material daquelas identidades. Mas percebi que não há atos isolados. Ao assentar os nomes completos nas lápides, pode-se conhecer uma faceta de suas identidades. Entretanto essa não se esgota nesse ato e não nos faz conhecê-los. A única forma de tê-los um pouco mais completos é mergulhando nas suas histórias.
Nomear, conhecendo, é de outra ordem. Assim, creio que a investida deve se preocupar menos com a "lista de nomes" e os possíveis sobrenomes conhecidos. A glória ou não de muitos ao verem o seu "nome de família" ou o de um amigo ali e ficar preso a esse dado é não ter, infelizmente, a grandeza de espírito para inclinações mais densas. O nome naquelas lápides não é um ato de curiosidade para os vivos que ali vão olhá-los. É sim um presente póstumo para quem ali está. Em cada lápide, não se esqueçam, há os restos de um corpo, de uma história, de uma vida.
Na história da minha história em busca das polacas encontrei narrativas que falavam de seres humanos e suas vivências dos percalços e das alegrias do dia-a-dia. O mais bonito, certamente, é que para onde emigraram, fundaram sociedades que mimetizavam o mundo judaico do qual estavam alijadas. O lema da sociedade carioca fala por si. Eram as irmãs dos Cheised chel emes: da caridade de verdade, aquela que não deseja recompensa. Nessas horas me lembro sempre de dona Rebecca, a última polaca carioca que morreu com 103 anos em 1984. Em uma conversa com o jornalista Zevi Ghivelder ela afirmou saber que era fruto de uma circunstância e soube vivê-la.
O meu desejo de trazer a história desse grupo e de, principalmente, deixá-los falar, passou necessariamente por escolhas difíceis. Meu compromisso foi sempre o de respeitar as suas vontades. Seguindo esta trilha, não há codinomes em meu trabalho, como também agora não existem identidades arrancadas nas lápides do Butantã. Isto porque, elas também não usavam nomes falsos Assinaram em todas as atas das suas sociedades de ajuda mútua que vi, das diferentes sociedades que analisei, os seus nomes completos. No Rio, quando casavam, muitas vezes com não judeus, acrescentaram aos seus nomes o sobrenome do amado, de maneira clara. Em São Paulo, se contraíram matrimonio fora do grupo religioso, continuaram a identificar-se com os seus nomes e sobrenomes judaicos[2].
Mas conhecer suas identidades só faz sentido quando sabemos de quem estamos falando. Mais do que nomes ao vento, histórias de vida. Pelo meu desejo sincero de ter podido contribuir para esse conhecer, gostaria de concluir com as palavras do rabino Sobel na reza do dia 27 de fevereiro, torcendo que estas sejam palavras proféticas:

"rezamos hoje 'El malê rachamim' em memória das mulheres sepultadas nesta área do cemitério. Que cada uma delas descanse em paz."

-----------
Notas:
[1] Devo a Robert Pechman (IPUR/UFRJ) a menção desse local e a Felipe Doctors as fotos do local em 1970.
[2] Mapeei cinco sociedades de ajuda mútua fundadas por estes homens e mulheres nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Buenos Aires e Nova York. Provavelmente estas não foram as únicas entidades fundadas por estes judeus e judias envolvidos com a prostituição. Em cada cidade onde o mercado era propício às exóticas moças judias, também devem ter existido suas sociedades, suas sinagogas e seus cemitérios próprios. O objetivo destas instituições era o de manter, na prática do cotidiano destes homens e mulheres, a identidade religiosa, já que o convívio com as comunidades judaicas locais lhes era proibido e as demais instituições comunitárias judaicas não permitiam sua participação.